domingo, 3 de janeiro de 2016

A relevância de um Deus Criador


Por Jânsen Leiros Jr.

Qual a relevância em se conhecer a origem do universo? Que importância pode haver em se saber se foi mesmo Deus quem criou todas as coisas, ou se esse universo não passa de obra do acaso, de uma geração espontânea de matéria, ou de processo evolutivo autônomo? Para o pragmatismo do mundo moderno, talvez, saber “o que”, “quando”, “como”, “quem” ou “por quê” o universo surgiu, não tenha mesmo a menor relevância. Afinal, trata-se de uma temática que, na concepção científica em geral, remete a um fato ocorrido há milhões ou até mesmo bilhões de anos. Um acontecimento tão cronologicamente remoto, naturalmente não desperta grande interesse. Pelo menos não fora dos conceitos e teorias científicas.

 Ou seja, se o assunto desperta algum interesse à maioria das pessoas, é pelo enigma do universo em si, e não pela possibilidade eventual de um Criador. Nesse caso o assunto, entende-se, se torna tema religioso. E religião tem importância menor no conceito humano moderno.

 A verdade é que nossa sociedade anda em busca do novo, do surpreendente, do que é ousado e fora dos padrões supostamente impostos e não naturais. E a menos que o assunto criação venha ao noticiário temperado com revelações surpreendentes, não se dá a ele qualquer atenção. E o que há de novo, ou diferente na clássica declaração religiosa sobre a criação do universo? Mesmo nós cristãos, quando falamos da criação, somos rasos e tratamos o tema como hermético, não havendo nada a se conhecer ou reler, além de tudo o que já se ensinou nas escolas bíblicas pelo mundo. Talvez estejamos atravessando um tempo mais que oportuno, para entendermos o universo como criação de um Criador. Talvez seja um momento, mais que perfeito, para mergulharmos na face do abismo.

 Mesmo que a agenda mundial de discussões temáticas esteja preenchida com questões práticas, perguntas como “quem somos”, “de onde viemos”, e “para onde vamos”, continuam a frequentar a mente humana. Principalmente porque a sociedade moderna vive uma grave crise de convicção. Por seu caráter dinâmico, instável e evolutivo, quase que diariamente, pressupostos científicos considerados inquestionáveis são derrubados por novos pressupostos, baseados em novas descobertas promovidas pelo avanço tecnológico. Métodos produtivos e comerciais consagrados tornam-se obsoletos numa velocidade tão grande, que muitas das vezes nem mesmo chegam a ser compreendidos em todas as suas possibilidades, e já são postos de lado pela geração seguinte de profissionais. O prazo de validade dos conceitos e ideologias está tão curto, que muitas vezes não conseguem sequer chegar às prateleiras, para consumo daqueles que anseiam por acreditar em alguma coisa que lhes faça algum sentido. Na sociedade moderna, aquilo que é verdade hoje, pode amanhecer amanhã como uma desprezível visão míope daqueles que a defendiam.

 Nessa realidade conjuntural, ninguém quer se comprometer com ideia alguma, ou defender conceito algum que possa lhe caracterizar como ultrapassado. E o que pode ser mais ultrapassado na sociedade moderna do que a fé num Deus Criador? Não que a crença na existência de Deus ou numa força superior seja considerada antiquada. Não. Na verdade, está cada vez mais em moda especular sobre Deus, confessar-se uma pessoa de , declarar-se interessado nas questões espirituais, metafísicas ou extrassensoriais. Nunca a mídia abriu tanto espaço para a religiosidade. Em nenhum outro momento da sociedade moderna se falou tanto em sobrenatural como agora. Religiões orientais avançam poderosamente, conquistando devotos das mais variadas posições sociais e condições econômicas. O cristianismo reascendeu com o movimento carismático e a popularidade do neopentecostalismo. Além disso, os espiritualistas se propagam rapidamente entre os tendenciosamente gnósticos. Isso sem falarmos dos chamados esotéricos de última hora, que na falta de compromisso com uma só filosofia, creem em quase tudo ao mesmo tempo, misturando doutrinas e superstições.

 Ora, se o “sagrado”, o “espiritual” e o “metafísico” estão na moda, por que um Deus Criador é uma idéia considerada antiquada? Simplesmente porque a criação Divina foi, ao longo do tempo, banalizada pelo uso de interpretações que, em vez de tentar levar às pessoas a compreensão do “porque” e do “para quê” o universo foi criado, tentavam explicar aquilo para o qual a própria Bíblia não se apresenta como fonte: o “quando” e o “como” se deu a criação.

 Diante de uma postulação muitas vezes impúbere e desprezível à luz da sociedade moderna, a humanidade correu para tentar explicar o universo através daquilo que pudesse parecer mais aceitável. Nessa busca pelo racionalmente provável e crível, descartou-se por completo a ideia de que Deus criou o universo, e se avançou a favor das teorias evolucionistas, e filosofias cosmosóficas, onde até se pode admitir a existência de Deus, mas não sua participação direta na criação. A partir daí, passamos a conhecer algumas teorias absurdamente contraditórias. Ainda que o método científico prime por postular sobre aquilo que possa ser comprovado, trabalham com hipóteses tão remotas e conjecturas tão criativas, que às vezes é preciso mais fé para crer naquilo que defendem, do que na Criação Divina.

 

Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo.

Colossenses 2:8; RA


Diga a essa gente que deixe de lado as lendas e as longas listas de nomes de antepassados, pois essas coisas só produzem discussões. Elas não têm nada a ver com o plano de Deus, que é conhecido somente por meio da fé. Essa ordem está sendo dada a fim de que amemos uns aos outros com um amor que vem de um coração puro, de uma consciência limpa e de uma fé verdadeira. Alguns abandonaram essas coisas e se perderam em discussões inúteis. Eles querem ser mestres da Lei de Deus, mas não entendem nem o que eles mesmos dizem, nem aquilo que falam com tanta certeza.

1 Timóteo 1:4-7; NTLH

  

Fiel é esta palavra, e quero que, no tocante a estas coisas, faças afirmação, confiadamente, para que os que têm crido em Deus sejam solícitos na prática de boas obras. Estas coisas são excelentes e proveitosas aos homens. Evita discussões insensatas, genealogias, contendas e debates sobre a lei; porque não têm utilidade e são fúteis.

Tito 3:8-9; RA

 Há que se destacar ainda, que a teologia praticada com displicência também tem sua parcela de culpa, contribuindo, ainda que indiretamente, no afastamento do Homem da noção do Deus Criador. Não por defender o princípio incondicional de que Deus criou o universo, o que continuam defendendo heroicamente, mas pela aventura a que alguns teólogos se lançaram, ao debaterem nuances secundárias, que desviam o pensamento piedoso daquilo que na verdade importa na questão da origem do universo e da vida no planeta. 

Ora, que importância teológica há, em se saber se o período da criação corresponde a uma semana do nosso calendário, ou se o autor de Gênesis está fazendo alusão a um período de centenas, milhares ou milhões de anos? Que diferença faz crer na Teoria do Intervalo, ou acreditar que a criação foi um ato progressivo e cronológico? É sobre temas como esses que Paulo fala nos textos acima. Para ele, questões como estas são vãs e sem proveito para o espírito do homem. Não me surpreende, portanto, que a sociedade atual tenha se distanciado do Deus Criador. Fracassamos em apresentá-Lo ao homem moderno, quando não destacamos aquilo que realmente pode lhe servir de conforto, na sua busca frenética pela verdade que o liberte de seus questionamentos e dúvidas inconfessáveis.

 Há um fator muito importante que nos deve orientar na apresentação do Deus Criador. Não é o pretenso conhecimento da verdade dos fatos que nos aproxima d’Ele, mas sim, o que Ele nos revela de seu Ser na narrativa da criação. Isso sim pode influenciar diretamente o relacionamento da criatura com seu Criador. Não é o saber teológico ou uma presunçosa erudição que opera o fortalecimento espiritual, mas o que o próprio Deus revela de Si mesmo através das Escrituras, e da interação que cada indivíduo estabelece com Ele. Assim, reconhecer que no princípio criou Deus os céus e a terra, é mais do que tomar conhecimento da autoria de uma obra. Através dela e de tudo que a envolveu e a circunstanciou, podemos conhecer a Pessoa que a realizou. Isso mesmo; a Pessoa do Criador é o objetivo final da narrativa da criação.

 Aí está a grande diferença entre o movimento espiritualizante presente na sociedade, e a narrativa sempre atual da Criação. No primeiro, temos a crença num deus energia, cósmico, abstrato, ou ainda em um deus observador, distante e ausente, características concluídas do conjunto das ideias defendidas por esses modernos religiosos. Em contrapartida, nos sugere a narrativa bíblica, crer num Deus Criador é crer num Deus que pretendeu, planejou e quis criar o universo. Quis trazer você, eu, nossas famílias, todos e todas as coisas à existência por amor. Ele se importou comigo mesmo antes de eu existir. Nem você, nem eu, nem ninguém é obra do acaso. Deus se envolveu na criação, cuidou de tudo nos mínimos detalhes, realizou toda a obra de forma participativa e soberana, estabelecendo formas, métodos, princípios... Tudo o que fosse necessário para que ao final pudesse dizer: “... muito bom!”.

 

Tu és digno, Senhor e Deus nosso, receber a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas.

Apocalipse 4:11; RA

Somos o que somos e estamos onde estamos, pela vontade realizadora de Deus. Ele, muito embora pleno e tendo em si mesmo a satisfação de tudo o que envolve sua existência eterna, quis criar a humanidade para, com ela, dividir a glória de existir, de ter vida. E para isso não mediu esforços. Nem mesmo a falta de matéria para criar o universo o impediu de realizar sua vontade de trazer à existência aquilo que concebeu. Deus cria do nada aquilo que antes não existia. Não por pura exibição de poder, mas por sua determinação última em criar um ser à Sua imagem e semelhança, a quem viria dar o domínio de tudo o que criasse. O amor de Deus expresso em sua soberana vontade criadora, não conheceu barreiras que o pudesse deter. Não é de se estranhar que este mesmo Deus se concentre em buscar o homem, em resgatá-lo. Trazê-lo para perto, e estabelecer com ele intenso e sincero relacionamento, comunhão estreita, Criador e criatura, Deus e Homem... Pai e filho. 

Acreditar em Deus como criador do universo é mais que um conceito teológico. É perceber que Ele se revela na criação. Não é em vão que o apóstolo Paulo afirma que “... o que se pode conhecer a respeito de Deus está bem claro para elas (pessoas que dizem não crer em Deus), pois foi o próprio Deus que lhes mostrou isso. Desde que Deus criou o mundo, as suas qualidades invisíveis, isto é, o seu poder eterno e a sua natureza divina, têm sido vistas claramente. Os seres humanos podem ver tudo isso nas coisas que Deus tem feito e, portanto, eles não têm desculpa nenhuma. Eles sabem quem Deus é...” (Romanos 1:19-21; BLH).

Podemos concluir, então, que há grande relevância em se crer que Deus é o Criador do universo. Essa crença determina a visão como cidadão do cosmos, amplia a compreensão da vida em todos os seus aspectos, e influência o grau de relacionamento com Ele. Pois quando não acreditamos no Criador, O limitamos em sua capacidade realizadora e anulamos em essência seus atributos. Fazemo-lo espectador da história, mero observador da vida, que se desenrola alheio a sua vontade e controle.

 Não crer num Deus Criador, é destroná-lo, fazê-lo impotente. Um fantoche, produto do imaginário coletivo, resultado da fragilidade humana. Porque se Deus não criou o universo e tudo o que nele há a quem é que adoramos? Em quem é que cremos? Porque se Ele não criou, também não se envolveu. E se não se envolveu também não se interessou e nem se interessa pela humanidade, ou apenas o faz naquilo que O convém. Logo, nos entrega à própria sorte. Ora, um Deus assim não ama. E sem amor, como poderia se esvaziar de si mesmo para encarnar e salvar o mundo? Se Deus não é Criador, então o cristianismo é uma grande fraude, e somos todos infelizes, loucos e alienados. Se Deus não é Criador, em que se sustenta a nossa fé?

 De certa forma, a Criação está para o Antigo Testamento no que se refere à sustentação do poder realizador de Deus em benefício do seu povo, como a Encarnação está para o Novo Testamento, no que diz respeito ao poder redentor de Deus e sua vontade de salvar a humanidade. Paralelamente, tanto a criação quanto a encarnação revelam um Deus pessoal, cheio de amor, agindo incondicionalmente e acima de toda e qualquer dificuldade. Primeiro para criar um ser com quem dividisse a glória de sua existência, e com Ele se relacionasse, e segundo para resgatar esse Homem e novamente restabelecer relacionamento com Ele. Ambos os fatos, cada um em seu contexto histórico, são os detentores fatuais da demonstração maior do interesse de Deus pela humanidade, do seu desejo último de ter esse Homem por perto em íntima comunhão e estreita interação.

 

Levantai ao alto os olhos e vede. Quem criou estas coisas? Aquele que faz sair o seu exército de estrelas, todas bem contadas, as quais ele chama pelo nome; por ser ele grande em força e forte em poder, nem uma só vem a faltar.

Isaías 40:26;RA

 

Assim diz Deus, o Senhor, que criou os céus e os estendeu, formou a terra e a tudo quanto produz; que dá fôlego de vida ao povo que nela está e o espírito aos que andam nela.

Isaías 42:5; RA

 

Assim diz o Senhor, que te redime, o mesmo que te formou desde o ventre materno: Eu sou o Senhor, que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus e sozinho espraiei a terra;

Isaías 44:24; RA

 

Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?

Romanos 8:31-35; RA

 

Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.

Filipenses 2:5-8; RA

 Por esta razão, em alguns textos do Antigo Testamento, principalmente nos capítulos 40 a 57 de Isaías, a criação é citada antes da predição do que Deus pretende fazer a favor do seu povo. Da mesma forma os escritores do Novo Testamento sempre sustentaram suas afirmações sobre a misericórdia e o amor de Deus, no fato de ter Ele enviado seu filho em favor de nós. O que na verdade os autores pretendiam, era conclamar seus ouvintes e leitores a crerem que, o que virá adiante, é obra do Deus que criou e do Deus que encarnou. Estão, na verdade, chamando-os à fé. Numa palavra, à luz do que diz o autor em Hebreus 11:3, tanto crer num Deus Criador, quanto crer num Deus Redentor é uma atitude de . E é por si só, uma atitude definitivamente relevante.



Jânsen Leiros Jr. é  poeta, 
escritor, blogueiro, professor, 
e graduando em Filosofia pela UERJ

sábado, 2 de janeiro de 2016

A Religião e suas gaiolas


POR CARLOS MOREIRA

Eu acho curioso quando pessoas ligadas à religião tentam patentear Deus. Sim, eles querem um deus domesticado, alguém que siga conceitos teológicos pasteurizados, costumes dietéticos, um deus que se submeta a convenções, que siga liturgias, que cumpra agendas, que consiga ser explicado, ainda que não possa ser compreendido.

Olhando esta geração, e conhecendo a história do cristianismo, penso que chegamos à última fronteira, não posso conceber algo pior. A igreja contemporânea tornou a idade das trevas medievais um parque de diversões. O que se faz hoje, em nome de Deus, reduziu a inquisição e as cruzadas a histórias de jardim da infância.

No Brasil, o fenômeno religioso-cristão é passível de estudo. Ainda que templos e catedrais estejam lotados, as manifestações de fé são cada vez mais patológicas. A quantidade de gente adoecida por causa de crenças perversas e infundadas é alarmante. A religião tem esse poder: quando não sara a consciência, adoece todo o resto. Se Marx fosse vivo, diria que esse tipo de prática é o “Rivotril do povo”. 

O cristianismo brasileiro é, na verdade, uma hidra com muitas cabeças. A igreja de Roma tenta sobreviver à secularização, busca de todas as formas preservar heranças moribundas das práticas ibéricas que submergiram no Velho Continente. A igreja Protestante, por outro lado, é a expressão da perversão, resultado da alquimia que simbiotizou doutrinas judaizantes, positivismo filosófico, costumes das religiões Afro e o pentecostalismo americano do início do século XX. Exceções? Sim, existem, mas pouquíssimas!

Diante deste cenário, resta-nos perguntar: o que nós podemos fazer? Bem, penso eu, nada. Não creio que ação de homem algum, ou de instituição, doutrina, ideologia, métodos ou qualquer outra coisa seja capaz de alterar a situação. A solução não está no que se pode fazer, a partir da Terra, mas do que já está sendo feito, a partir dos Céus! Sim, Deus está se movendo há tempos, nós é que, talvez, ainda não tenhamos discernido.

Um bom observador, contudo, vai perceber que estamos diante de algo muito próximo ao que aconteceu nos dias de Jesus. Naquele tempo, a religião de Israel adoecera de morte. As práticas eram lesivas, o sacerdócio havia se transformado em exercício político, a interpretação da Lei era tendenciosa, o Sinédrio estava corrompido, a fé havia se dessignifcado. A corrupção era tal que o lugar da adoração transformou-se em centro de comércio, impulsionava a Nação. Nada do que se fazia ali tinha significados para Deus, até o perdão tornara-se negó-cio, era vendido e comprado por preço. Tudo tão semelhantes aos nossos dias...

Mas Deus tinha seus próprios planos. Ele irrompeu as tradições, desprezou geografias pseudo-sagradas, ignorou hierarquias, sublevou interesses e enviou João, o batista, para o deserto. Lá, ele pregava o arrependimento e conclamava o povo a mudança de vida, afirmava que o Reino de Deus estava próximo, Reino de consciência e fé, não de aparência e opulência.

Na verdade, o Senhor sabia que Anás e Caifás não se converteriam, que Herodes não se renderia a Graça, nem tão pouco o Sinédrio se sensibilizaria ao Evangelho. Por isso João foi enviado ao deserto, sem Templo, sem utensílios sagrados, sem os rolos da Torá, sem lugar para sacrifícios, sem liturgias, sem levitas, sem nada que não fosse o Espírito Santo, a Voz do que clamava no deserto! Nós sempre imaginamos que a solução para tudo está do “lado de dentro” da igreja, mas Deus, não raro, começa agindo no deserto, do “lado de fora”!

Dali por diante, quebrados os paradigmas, o Galileu foi “destruindo” o que encontrou pela frente, mitos foram caindo, um por um. Ele afirmava as multidões: “Ouvistes o que foi dito aos antigos...” e expunha os preceitos caducos da Lei. Em seguida, todavia, afirmava com autoridade: “Eu, porém, vos digo...”, e dava novo significado a tudo. Com leveza, o Evangelho foi sendo fecundado no coração das pessoas e os simples de coração puderam entendê-lo.

A igreja cristã brasileira pensa ser proprietária da fé em Jesus. Católicos e Protestantes se arvoram como legitimadores do Evangelho. Trancafiados em suas “gaiolas”, imaginam que o Senhor juntou-se a eles. Engano. Deus é claustrofóbico! Saiu da “arapuca” faz tempo. Aqueles que ainda enxergam e são honestos sabem que o “sistema” está condenado! Sim, há muita gente boa na Instituição-Igreja, gente de Deus, mas a luta deles é inglória, não há como salvar aquilo que já nasceu condenado. A igreja de Jesus triunfará! A dos homens, não... 

É tempo de perceber o que o está acontecendo! Milhares começam a surgir, de todos os lugares, filhos da Esperança e da Graça, e esses não estão vinculados a nada, são apenas pessoinhas do bem, gente de coração singelo e boa consciência, sem tradições, sem liturgias, credos ou dogmas. Eles vão por aí, estão em pequenos grupos, em ajuntamentos informais, comunidades livres, partem o pão, falam com Salmos, sensibilizam-se com as dores das pessoas, comprometem-se com ações que promovam a dignidade humana e a preservação do Planeta.
 
O que posso lhe dizer, depois destes mais de 30 anos caminhando com Jesus, é que “O vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai”. Há, novamente, muitas vozes que clamam no “deserto” e elas estão anunciando o arrependimento e a Salvação. Algo está se movendo, cada vez mais veloz, o Vento está soprando, livre e leve, portanto, discirna para onde está indo e siga junto com ele.

© 2015 Carlos Moreira
Outros textos podem ser lidos em http://anovacristandade.blogspot.com